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Labirintovitae

Na confusão do todo buscar o desatar dos nós de nós
July 16

Mais escritos...esperando que não sejam menos....??!!!

 

        

TÍMIDO…

Vezes sem conta ali passei,
Vezes sem conta ali a vi,
Vezes sem conta não me perdoei
Porque a ela nenhuma vez me dirigi.

Vezes sem conta me alheei,
Vezes sem conta a senti,
Vezes sem conta a amei,
Tantas quantas dela fugi.

Todas as vezes eu pensei,
Todas as vezes me retrai,
Todas a vezes me neguei,
E em nenhuma vez eu reagi.

Todas as vezes a procuro,
Todas as vezes me escondo,
Todas as vezes me censuro,
Porque a ela nunca me exponho.

Quantas vezes assim vou continuar,
Quantas vezes me limitarei a parar,
Quantas vezes me irei arredar
Da mulher que não consigo afastar?

Quantas vezes irei desanimar,
Quantas vezes a irei esperar,
Quantas vezes os olhos irei afastar
Dos olhos dela, seu arrebatador passar?

Por uma só vez desejava,
Por uma só vez acalento,
Por uma só vez adorava
Não deixar o meu intento
No meio de tímida estrada,
Nos sonhos levados pelo vento.

Nito  

              

O NÃO SUSTENTÁVEL SER…

Já ninguém fala com ninguém,
Fala-se com alguém, fala-se de nada;
Estamos numa jangada que vai e vem
Com todos para o mesmo lado, uma parada.

Fala-se de tudo, conversa-se de outros,
Esquecendo nos outros os nossos íntimos,
Procurando em conversas como loucos
Os nossos pormenores, os nossos ínfimos.

Procura-se dar e até ver a imagem,
Não intentamos da nossa alma saber,
Queremos viver na estonteante miragem,
Porque o nós que somos é terrível de ver.

Procura-se e compra-se o falado êxito,
A todo o custo, nem que seja nos enganos
Ignora-se as linhas que cose o nosso peito,
Queremos são as etiquetas que nos tirem anos.

Esquecemos o quão pequenos nos tornamos
Na procura inócua da grandeza do parecer,
Esquecendo que lindo é o que ignoramos,
O que nos faz grandes é só o tentar saber.

Conversemos da vida que queremos,
Olhemos nos olhos da nossa existência,
Conversemos com os outros e sintamos
Sermos, dever ser a nossa persistência.

Nito


              

QUE SOMOS?

  

Exigentes?
Somos!
Complacentes?
Somos!
Independentes?
Somos!

Inseguros?

Somos!
Desconfiados?
Somos!
Queremos tudo?
Queremos!
Queremos nada?
Queremos!
Queremo-nos?
Queremos!
Como?
Não sabemos!  

Nito 

                

 

COM QUEM FALO?

Que saia este desejo em mim,
Que saia esta agrura,
Que se torne afónica esta voz,
Esta voz que me tortura.

Sai de mim quem tu és,
Sai de mim que não te quero,
Sai de mim e totalmente de vez,
Que saia de mim esta constante procura.

Quem tu és que me surges,
Quem tu és que me apoquentas,
Quem tu és que me urges,
Com palavras que me atormentas.

Vai e de mim sai,
Sai e que de mim te escondas,
Não quero saber o que te vai,
Não quero vogar nas tuas ondas.

Se me procuro tu me apareces,
Mas por que raio, juro,
Ao me vires tudo escureces,
Quando eu quero é ver-me puro.

Quero-te matar mas não consigo,
És o veneno que me vicia,
És a parte que por vezes sigo,
Que a todo o momento me alicia.

Não sei se eu se tu, qual dos dois ficará,
Neste corpo que sempre julguei meu.
Sou cego, não sei qual dos dois vingará.
Uma coisa eu temo neste corpo de ateu,
Venhas de Jeová, Alá, Deus… Oxalá,
Nunca ter sido de mim, sempre ter sido teu.

Nito

                                                            

 

QUE ALMA?

Apesar da alma existe corpo em nós,
Ou será o contrário?
Apesar do corpo existe alma em nós!
Não quero ser ordinário,
E muito menos extraordinário,
Mas é pergunta que resiste,
É sentimento que insiste.
Sinto-me num enredo,
Sinto um medo,
Sinto um calafrio,
Sinto um frio.
Sinto um receio em mim,
Sinto um esquecer,
Diria antes um não saber
Do que estou afim,
Por não saber para onde vim!
Qual o propósito,
Nisso, me confesso, sou agnóstico
Pior, não tenho prognóstico,
Quanto mais um diagnóstico!

Nito

 

               

 

 

BEIJOS SEM TI, SENTI

Beijos sem ti ,senti!
Não interessa? Interessa porque me senti!
Senti cada beijo de ti,

Senti cada beijo de mim em ti!
Enfim senti!
Apesar de sem ti, senti!


Se contigo não sou amigo!
Se comigo, amigos, não sabemos ser!
Se só amigo, não quero ser mendigo,
Quero ser actual, não virtual,
Quero ser de sempre, presente!
Amigo, amante, nunca ausente!
Em ti expectante,
Em ti penetrante, em ti, ali!
Sem me notares, mas ali, insinuante, carente!


Ali quero estar,
Por em ti não poder, não saber começar.
Por em mim não poderes, saberes entrar.
Eu sou mais um, e tu?
Eu sou mais nenhum sem ti!
Tu és mais uma, e eu? 
Tu és mais nenhuma sem mim!
E os outros?
Não existem em lugar nenhum,
Em lugar que tu e eu sejamos um!


Tanta coisa que temos a resgatar
Nunca a regatear!
Eu não te regateio.
Regatear-me?
Não o faças porque vendido já estou!
A quem?
A quem me quer regatear,
Por não saber que, a quem, já sou de graça!
Pela graça de ser, de quem
De graça sou!

 

Nito
 

 

                

“DÁ-TE-ME”

Dá-me o teu corpo, que nele me quero colar.
Dá-me os teus seios, que neles quero sugar.
Dá-me a tua face, que nela me quero ver.
Dá-me as tuas dores, que nelas quero sofrer

Dá-me o teu ventre, que nele quero florescer.
Dá-me o teu sexo, que nele me quero meter.
Dá-me os teus olhos, que neles quero entrar.
Dá-me a tua alma, que nela quero estar.

Dá-me as tuas mãos, que nelas quero beijar.
Dá-me o teu tesão, que nele quero gozar.
Dá-me as tuas lágrimas, cada uma quero sorver.
Dá-me as tuas penas, que as quero abater.

Dá-me os teus traços, para sempre te recordar.
Dá-me os teus lábios, e neles me lambuzar.
Dá-me o teu dorso, por cima dele adormecer.
Dá-me o teu cheiro, com ele me entorpecer.

Dá-me os teus cabelos, que neles quero deslizar.
Dá-me tuas nádegas, que nelas quero roçar.
Dá-me os teus braços, que neles quero anichar.
Dá-me as tuas pernas, entre elas me encontrar.

Dá-me os teus gestos, em cada um te reconhecer.
Dá-me a tua sensualidade, e nela me perder.
Dá-me o teu rir, as minhas mágoas esquecer.
Dá-me o teu mundo e contigo eu poder ser.

Dá-te-me, que em ti quero morrer!
Dá-te-me, que em ti quero viver!

Nito

 

 
 
 
O NOSSO AMOR
 
O nosso amor é como a espuma,
Como a espuma do mar.
É feito do amar,
Feito da água com a areia, a enrolar.
Nada o sabe parar,
Não há quem saiba desatar
O nosso abraçar,
Nada, nem coisa nenhuma.
 
Somos feitos de nós,
E dos nós onde nos prendemos,
Na doce prisão em que a voz
São os gestos onde nos entendemos.
No silêncio nos compreendemos,
Só o estremecer das nossas almas
Se pressente, no amor que fazemos,
Nas nossas tardes calmas.
 
O nosso amor é como a espuma,
Que nossas desavenças amacia
Como uma ventosa maresia
Que nossos desejos enfuna.

Nosso amor é como a seiva
Que nenhuma flor a contraria,
Que nossas vidas eleva
Que nossos corpos arrepia.
 
O nosso amor é como a espuma,
Que nosso rosto lava,
Como a seráfica luva
Que nossos sentires afaga.

Nosso amor é como a lava
Que nunca se esfuma,
Que nossos sentires perfuma,
Arrasa dúvida alguma.
 
Somos feitos do amor,
Não da dor; feitos do ardor,
Que nossos corpos exalam,
No encontro dos olhos que se falam.
 
Que o nosso amor não se finde.
Que a paixão não se fine.
Saibamos cuidá-lo e se estime,
E em nós para sempre se confine.
 
Nito
   

  

 

   PROVAR? QUE PROVAR?  

O amor não se prova, prova-se,
O amor não se demonstra, mostra-se,
O amor não se prova, degusta-se,
O amor não se aprova, sente-se.
 

 

Nada a aprovar, tudo a provar!
Provar o que se dá,

Degustar o que há,
Sem ter que se aprovar!

 

  Sentir, fluir, deixar ir em nós.
Invadir, penetrar, ele que entre,
Não seja um porteiro de grossa voz
Que o impeça, que por nós adentre!
 

 

Deixemo-lo ir, sem mais,
Nem porquês. Que quês?
Deixemo-lo vir sem talvez,
Mais vale um não em vez dos tais porquês!
 

 

Não se aplica, não se explica.
Aplica-se em quem se sente implicado.
No caso de quem se sente amado,
No caso de quem ama e se aplica!
 

 

Ama-se e pronto,
Entrega-se e se dispõe.
Ama-se, e não há conto
A quem nessa situação se põe.
 

 Não há conto do que é,
Não há conto nem drama,
Do que é feito com fé,
Nem uma pequena trama,
Assim visto, só feito é
Daquele que mesmo ama.
 

Nito

April 13

MAIS ESCRITOS

 
 

 

          

 

CONVERSAS

 

Quero-me perder nas vogais,
Mesmo que não sejam as tais.
Quero encontrar-me nas consoantes,
Mesmo que não sejam as mais sonantes!

Fica que quero, que é o mais importante,
Mesmo que irrelevante,
Mesmo que seja de coisas banais
De conversas com palavras irreais.

Quero-me perder na troca de ditos,
Alguns de pensamentos expeditos,
Outros menos explícitos, mas lícitos,
Todos de sentimentos pouco somíticos!

Quero trocar-me na alma,
Quero envolver-me na experiência,
Quero viver de forma calma,
Nas palavras, outra existência!

Quero muitas outras vidas,
De todas elas ser vampiro,
Mesmo aquelas mais tremidas,
De todas elas alguma coisa retiro.

 

Nito

 

 
 

 

VIDA

Olá Vida!
O relógio avança, o tempo dança,
E tu vida não páras!
A dúvida desponta,
O amor aponta
Os caminhos do voar!
O dia passa, a existência arrasta,
A vida não pára!
O amor desponta,
A dúvida aponta
O que não soubemos aproveitar!
Olha para os meus olhos,
Eles choram!
São lágrimas de mim.
Cada uma por cada dia que passou.
Cada uma por cada dia que não existi.
Cada uma pelo amor que não vivi, em ti!
Olha para a minha face,
Ela está triste!
É o rictus de mim,
Por cada dia que a lua não vi,
Com os olhos de ti!
Por cada dia que o sol não usufrui,
O sol que existe em ti, e eu não li.
Olha para o meu corpo,
Ele está magro,
É a fome de ti!
Por cada dia que não te absorvi,
Por cada dia que em mim não te tive,
Por cada dia em que a vida não vive,
Sobrevive!

Nito

 


 

 

NÃO ME QUEIRAS

 

Não me compares, sou incomparável.
Não me pares, sou imparável.
Na comparação que fazes
Sou insuportável!
Não me peses, sou impesável.
Não me esperes, sou instável.
No que de mim esperas
Sou incomportável!
Não me ouças, sou inaudível.
Do que não me falas, sou autista
Que fiz?
Um mero artista
Dum interior que diz,
Não desista!
Não me admires, sou inadmirável.
Não me castres sou inimputável.
Das belezas que gosto
Sou amável!
Não me expliques, sou inexplicável.
Não me queiras sou intragável.
Do que me queres ver
Sou invisível!
Não me resistas, sou irresistível,
O que ambicionas é futurista.
O presente
É o que mesmo conta,
Nas contas
Que o tempo nos desconta!

Nito

 

 

 

  

 

IMPOTÊNCIA

 

Uma sensação cá dentro,
Uma sensação a que não adentro,
Uma sensação inexplicável,
Dum solo rico, mas pouco arável.


Uma sensação que existe,
Dentro de mim persiste.
Que fazer com ela se é intocável,
Como tratá-la se não é manejável?


Que me queres se já me tens,
Que me queres se cada gesto me conténs,
Que te diga se não te sei,
Que me faça se não sei para onde irei?


Que me tente, se só tu me tentas,
Me apoquentas, me acalentas.
Mas pouco me respondes
E muito menos me atendes.


Ficando como um desnorteado sem sul,
Um sulista sem norte,
Uma rosa-dos-ventos sem pétalas,
Um vento sem direcção,
Um redemoinho, que não consegue
Ser furacão!

 

Nito

 

 

 
SEM SAÍDA
 
O cansaço, este cansaço
Que nos invade os ossos,
Transforma as tentativas de vida
Um aglomerado de destroços.
 
O cansaço que nos penetra,
Nos infecta cada desejo de saída.
A porta que atrai tem palavra secreta,
Cada acto é mais outra recidiva.
 
O cansaço de nada vermos,
Tudo é passado, tudo é visto,
Para além do que já sabemos;
Novidade é bem que é arisco.
 
O cansaço que nos entristece;
Cada momento uma desilusão;
Em cada dia mais nos arrefece
A procura da desejada sensação.
 
O cansaço que nos investe,
O cansaço que a todos nos toma,
Até que da esperança nada reste,
Nem nesta nem noutra forma.
 
O cansaço, este grande cansaço,
Que nos leva a desistir de nós,
Que nos leva a procurar um regaço,
Um em que não nos sintamos sós.
 
O cansaço de nada ser solução,
O cansaço de tudo ser inútil,
Uma procura quase sem razão,
Cada ressurgimento é coisa fútil.
 
O cansaço de aqui escrever,
O cansaço da tentativa proscrita,
O cansaço de procurar obter,
Minha alma no prazer da escrita.
 
Nito
 

 
  TU  
Amor, sorri o teu sorriso perfeito,
Deixa transparecer o quão és bela 
Que sempre em mim tem o efeito,
De estar a apreciar a mais singular tela.
 
 
Gestos teus são passos de dança,
São raros movimentos graciosos,
Ao vê-los meu coração se lança
Na folia de batimentos fogosos.
 
Tu és harmonia, tudo em ti é luz,
Cada contorno uma obra-prima,
Cada pormenor que tanto seduz,
Cada detalhe um verso que rima.
 
 
Bendito seja o ar que respiras,
Vê tu que até dele sinto ciúme,
Mas sorte minha que me prefiras
Ainda mais seres o meu amado lume.
 
 
Corpo de curvas sedosas e tom cálido,
Rosto belo de bela moldura morena,
Torna qualquer um outro feio e pálido,
Transforma outros em coisa pequena.
 
 
Amar-te, cantar-te eu bem tento,
Mas sinto que me falta o jeito
Por ti nunca me falta o alento,
Por ti se me expande o peito.
 
 
Linda que tu és, linda porque existes,
Olha a minha alma onde sempre estás.
Bela no teu ser e em mim persistes,
Vê os meus olhos e neles te verás.

Nito

 

 
 

                AMO ODEIO  

A querer, não me queres,
A todas as horas me ignoras.
A ser lindo me sinto findo.
A ser eu me sinto réu!
 

Estou cansado de te amar,
Estou exaurido de te pensar,
Estou cansado do teu negar,
Sai espontâneo, um novo olhar.
  

Quero abafar o teu julgar.
Quero ser o que vais absorver.
Quero-te reter, e assim obter
De ti aquilo que desejar.
  

Quero-te pronta, sem defesas,
Para as minhas presas, sem surpresas.
Quero ser déspota, quero ser ditador,
De mulher rendida o vencedor.
  

Quero destruir-te e te reconstruir,
Na razão do meu sentir.
Quero-te de rastos, quero-te de quatro
No meu quarto a te usufruir.
  

Quero-te possuir sem apelo,
De mim sentires o gelo,
Do homem que não quis sê-lo,
E agora brota em mim em cada pelo.
  

Quero o teu sexo fechar,
A chave em mim trazer,
Seres a fonte do meu prazer,
Seres o objecto do meu querer.
  

Em ti quero rasgar
Cada boca do teu negar.
Em ti quero plantar,
Cada gesto meu, o teu amar.
  

Não mais o teu não,
Somente o teu tesão.
Todo o teu sim,
Porque agora só te quero assim.

 
E sem mais, e sem qualquer rodeio,
Não mais do que anseio,
Devido a ti quero ser feio,
Ser aquilo que mais odeio. 
 

 

Nito

 

  

LEMBRAR

A ti te procurarei,
A ti sempre desejarei,
Em cada rosto que deparar,
Em cada face que amar.
Amarei todas as mulheres,
Amarei uma a uma,
Sem me apaixonar por nenhuma.
Com todas estarei, mas nenhuma me terá,
Por não poder doar,
Aquilo que ofertado está.
Cada mulher que abraçar,
Um pouco de mim levará,
Mas nem uma irá levar,
O que uma vez dado nunca mais se dará.

Foste, e eu me fui contigo.
Se o corpo ficou a mente te persegue,
Em cada corpo que me entregue,
Procuro a alma, que encontrar não consigo.
Poderia tentar te esquecer,
A tua imagem apagar,
Mas para quê esconder
O que adoro recordar?

Foste, isso é inegável,
Não guardo rancor nem qualquer dor.
Aquilo que é inesquecível
Só há que guardar com amor.
Porquê riscar o tanto que vivi?
Porquê limpar o tanto que me senti feliz?
Negar-te, é negar o tanto de mim em ti,
Esquecer-te é a palavra que não se diz!

Nito

 

 

  

IGNORAR

Ignoro-te tanto como te amei,
Contigo agora sou frio.
Se em tempos contigo caminhei,
Agora, só, ir em frente como um rio.

Para quê ficar com lembranças do que foi?
Para quê esquecer o que esquecido é de lembrar?
Para quê remoer o que já não me dói?
Porque não me entregar a um novo amar?

Tu para o teu lado, eu para o meu,
Cada um em sua nova vida.
Que adianta ser mais um Romeu
A chorar a sua Julieta perdida?

Se perdi, não minto, já não sinto.
Se perdeste tu é que sabes, eu não.
Se nos perdemos foi num recinto
Em que andamos em contra mão.
 
Toma as tuas coisas poucas, 
Que as minhas poucas são.
Não nos digamos palavras moucas,
De nós nada resta, nem mesmo o tesão.

De nós pouco há mais a dizer.
Todo o falar é sobre o futuro.
Que foste em tempos o meu viver,
Isso não te nego, isso te juro!

Nito

 

 

ESQUECER

A cada passo me atormentas,
A cada passo por mim entras,
A cada passo me apoquentas,
A cada passo te recuso,
Cada passo de mim fazes teu uso!

Sai de mim que não te espero,
Sai de mim que não te aspiro
Sai de mim que não te quero,
Sai de mim que não te sei tirar
Dos meus pensamentos sempre a pairar!

De ti ainda guardo tudo,
Aquilo que em tempos foi meu mundo!
Quero tudo queimar, quero tudo de vez apagar,
E só lembrar o quanto me fizeste sentir rotundo,
E para sempre recordar
De tais passos não voltar a dar!

Vai, desaparece de meus sentidos,
Arranca-te de onde nunca estivemos unidos!
Vai extirpa-te da minha mente,
Porque só eu sei o que sente
Aquele que vê seus sonhos ardidos,
Toda a esperança cortada rente!

Se alguma coisa de ti por mim resta,
Abre-me uma fresta
Por onde possa respirar,
Abre-me a gaiola para longe de ti voar,
E assim procurar outro amar,
Que não noutra vida, mas ainda nesta!

Sai, vai, desvanece,
Que tudo em ti me entontece.
Sai, vai, desaparece,
Que tudo em mim arrefece.
Sai, vai, esvaece,
Que a minha vida perece!

Nito

 

 

 

QUERO

Quero, quero querer.
Quero, porque querer é poder.
Quero poder querer.
Quero o poder para querer,
Aquilo em que souber crer!
Quero o poder e poder
Ser o que em arte tiver em querer.
Quero poder para crer
Que querer é poder,
E poder crer!
Quero, quero ser o que acredita,
O que irrita a sua desdita,
O que dita a vida bendita,
O que incita e espevita
A benquista e maldita,
Por ubíqua,
A verdade recôndita!
Quero, quero ser o sonhador,
Do Graal a procura,
Que sua sorte descura,
A agrura sem usura,
Que se enforque a tremura
Nos testículos da lamúria!
Quero, quero um outro lado matar,
Um outro fazer vingar,
Em nada me alterar,
Só querer exterminar
O que me está a mascarar!

nito

A verdade paira num remanso
Onde a mente não tem descanso!

Nito

 

 
 

 

PROCURAR

Sair por aí correndo, escorrendo
O suor do meu fugir,
Lambendo o vento do meu surgir.
Sair por aí andando, procurando
Um novo e livre advir,
Bebendo as novidades que hão-de vir.

Esquecer o que não é mais,
Enterrar os passos habituais,
De novo aprender as passadas,
As que se dão em caminhadas, pausadas.

Esquecer gestos repetidos
De tanto usados, falidos.
Estrear roupas novas, cómodas,
Com aroma a esperança, nunca áridas. 

Sair ao encontro do lugar
Que no mundo tenho reservado.
Estou cansado de arrendar
Local, nunca por mim desejado.

Sair das paredes do meu tolhimento,
Entrar nos espaços de total visão,
Encontrar livres zonas de acolhimento,
Gritar bem alto o meu destino, a evasão.

Sair dos pensamentos de rotina,
Hoje ser, amanhã não saber.
Ontem foi o que me desatina,
O amanhã será coisa a suceder.

Sair por aí procurando flores
De aspecto e fragrância eterna,
Só algumas de lindas cores,
Mas nenhuma menos amena.

Que lugar será que me tem o molde?
Encontrarei o encaixe total, casa tal?
Anseios sem razão, que a vida não devolve,
Ou será mera procura, coisa formal?!

Que coisa é esta que procuro,
Que se torna tão premente?
Tão somente é sair do escuro
Onde se encontra a minha mente.

Nito

 

 

          

   EM TI SER

Pudera eu ser teu caminho sem retorno,
Pudera eu ser teu desejo obcecado,
Pudera eu ser teu local de abandono,
Pudera eu ser o viver do teu fado.

Não mais arrancado, assim do teu lado.
Não mais afastado, assim por ti amado.
Não mais apartado, assim em ti enleado.
Não mais mero ensejo, só por ti desejado

Quisera eu ser a tua doce quimera.
Quisera eu ser as tuas manhãs de primavera,
Ser os dias de acalmia, a vida que alumia
Teus momentos de solidão, ser a tua paixão.

Queria eu ser a tua eterna sedução,
De entre todas a mais válida razão
De fazer descompassar teu coração,
Em meu estar encontrares a solução.

Pudera eu ser o ar que precisas de tragar,
Pudera eu ser a água que precisas de ingerir,
De ti fazer parte, por ti toda me alastrar,
De mim precisares, a vida não te fugir.

De mim foge o alento, qualquer coisa cá dentro.
De mim foge a espera, coisa de quem desespera.
De mim foge o acreditar de algum dia me vires a amar,
Com teus braços a me enlaçar e eu em ti, a te rodear.

Nito

 

       

ENTREGUEI-ME

Se a ti me devotei,
A mim me esqueci,
Se a ti me entreguei,
De mim, nunca me tiveste.

Tiveste o que me sonhaste,
Mas nunca o que me viste,
Nunca olhaste o que te foi dado,
Só contente ficaste com o invólucro
De mim, o mais inócuo,
De mim o nada!

A ti não te provoco,
A ti só te coloco,
De ti só invoco,
Que saibas de ti,
Para que a mim possas querer.
Querer o que tenho para oferecer,
Não o que queres receber,
Só mesmo o que consigo dar,
O meu amar,
Nunca o meu representar,
Só o meu estar.

Entreguei-me a ti, e sei,
Não entreguei todo o meu sentir,
O feito do que de ti senti,
Esse, entreguei!
Não o feito das minhas dores,
O que não quero, o que nego.
Que não sejam para ti, os meus horrores,
Desculpa, de mim, só mesmo,
Os meus amores.

Sentes-te à parte?
Talvez, não sei,
Só sei que a ti tento
Entregar a melhor parte,
A parte que sou, a parte que te dou,
A parte que é minha,
Não a parte que represento,
Aquela que por ti, por vezes tento.
Recebe de mim a minha parte,
A de mim, mesmo que sem arte!

Nito

 

 

    
               
 
DA VIDA DESESPERO
 
Da vida, nada espero,
Da vida, desespero!
Da vida que me espera
Dela me querer libertar!
 
Não da vida que me foi dada,
Não da vida com que nasci,
Mas da vida que não me diz nada,
Daquela com que cresci!
 
Na procura dos desenganos,
Na procura dos ritmos,
Na procura dos caminhos
Que da vida só ficam istmos!
 
Que vida essa mágica eu procuro,
Que vida essa que não descortino,
Que vida que por vezes eu descuro
De a encontrar, porque me desatino.
 
Vida que mais parece dívida,
Vida que mais parece indevida,
Vida que parte das vezes é tida
Como uma corrida perdida, à partida!
 
Vida que é a minha,
Vida que a quero viver,
Vida que a desejo como a linha,
Que me há-de levar a um bom morrer!
 
Nito

 

 

                     

 

QUERO-TE

  

Quero em cada parte de ti parar,
Quero teus seios afagar, cada um admirar.
Quero teu sexo penetrar e nele me esconder.
Quero tuas nádegas apartar e nelas estremecer.
  

 

Quero entrar, quero ser parte de ti,
Quero provar teus sucos, quero gostar.
Quero comer-te, quero beber-te
Quero rodear-me no teu abraçar.
  

 

Quero cheirar a ti, cheirar à tua essência.
Quero a demência da dependência.
Quero amar teus traços, percorrê-los de rastos.
Quero envolver-me no que és da cabeça aos pés.
  

 

Quero-te encontrar, encontrar-me em ti perdido,
Achado em cada fresta de teu corpo,
Reflectido na tua pele, em ti rendido,
Perdido nas voltas do teu dorso.
  

 

Quero ser violado, invadido, acedido.
Quero ser derrotado vencido, no entanto
Vencedor da dor que a tua ausência
Acutila, com persistência, quase minha falência.
  

 

Quero espraiar-me nas tuas vagas,
Estirar-me, atirando-me na vertigem
Dos laços que estreitamos entre as valas
Dos paroxismos que nossos corpos atingem.
  

 

Quero ser eterno, quero ser pleno,
Quero vibrar a cada bocado de descoberta,
Quero passear nas nuances do teu terreno,
Quero ser cada sentido de mim, em ti, alerta.
 

 

Nito


 

 
March 30

MEUS ESCRITOS

                 
 
 
 
ANDA
 
Anda, vamos fazer amor.
Anda, vamos satisfazer o desejo.
Anda, vamos apaziguar nossa fome.
Anda, vamos acalmar nossa sede.
Vamos entregarmo-nos uma vez mais.
E uma vez mais nos saciarmos,
Deslizar, enroscar entre os lençóis,
Que puídos estão de nós,
Das saudades que esgotamos,
De novo presentes, de novo prementes,
No findar do amor que fazemos.
Que taça sem fundo o nosso amor é,
Que nunca se encontra cheia,
Numa ânsia de nós que mantêm em pé
Os gestos amados que devolvemos.
 
Anda, vamo-nos suar.
Anda, vamo-nos beijar.
Anda, vamo-nos trocar.
Anda, vamo-nos cansar.
Vamos ser o que não esgotamos,
Vamos ser amantes, beligerantes,
Numa guerra de corpos que só a paz procuram,
A paz da guerra que mantemos,
Entre o cansaço de nossos corpos
E a nunca satisfação do nosso amor,
Reflectido à exaustão nas brancas
Paredes dos nossos gestos.
Lindos somos, lindos nos olhos que se amam;
Teu olhar sempre me envaidece,
Meu olhar sempre te há-de transparecer
Na cegueira dos cegos,
Que cegos só nos queremos ver!
Anda, vamos ser um só!
 
Nito
         
                               

   

VIDAS

Olha, vamos brincar, saltar, correr.
Tu namorada cairás nos meus braços.
Eu, ingénua criança fingirei morrer.
Tu, aflita beijarás todos meus traços.

 

Olha, sabes o quanto gosto de ti,
Conta-me então as tuas dores,
E eu gemerei aquilo que não vivi,
Parte da tua vida que vem sem cores.

 

Olha, sei o quanto gostas de mim,
Fala-me então dos teus sonhos,
E nós faremos nossos dias até ao fim,
Lindas vidas de que seremos donos.

 

Olha, vamo-nos acarinhar, morder, amar.
Tu, fêmea ofegante, delirante, amante.
Eu, macho a arfar, a tremer, a desejar
Almas em cio, nada mais no instante.

 

Olha, conta-me aquela nossa história,
Bonita, bela sempre de se recordar,
E riremos juntos avivando a memória
Dos desejados momentos do namorar.

 

Olha, vamos ser meigos, audazes, felizes,
Esquecer cantares desafinados havidos,
Lembrar os muitos, aqueles como petizes,
Sempre sonháramos nunca serem findos.

 

Olha, conta-me dos filhos que temos,
O fruto perfeito dos nossos momentos,
Sequência mágica do que quisemos,
Do amor em nossos ventres, sem argumentos.

 

Olha, vamos continuar até sermos idosos,
Continuando a lembrar a metade na morte de um.
Viver nos dias que restam os momentos amorosos
Que permanecem em nós, em mais sítio nenhum.

 

nito

                           
    

 
 
ESTE ESTRANHO DESEJO
 
Quisera eu fazer um poema
De todos o mais perfeito dito.
Quisera eu fazer correr a pena
E dela sair o mais belo escrito.
 
Quisera eu que todas as palavras
Fossem aquelas de minha alma.
Quisera eu as letras encontradas,
Apaziguadoras, me plantassem a calma.
 
Quisera eu fazer a mais linda prosa
De exclusiva pertença dos estetas.
Quisera eu ter o fogo que goza
Nas entranhas dos autênticos poetas.
 
Quisera eu não ter na caneta como tinta
Aquela dorida, a de minhas lágrimas.
Quisera eu escrever como quem finta
As tristezas, aquelas, as das vidas ázimas.
 
Quisera eu fazer um hino à alegria
E cantá-lo durante tempos sem fim.
Quisera eu fazer um canto em cada dia
Que injectasse a plenitude em mim.
 
Quisera eu saber cantar o amor,
Ao cantá-lo trazer-te a meus braços.
Quisera eu de todo perder a dor
De te não ter, só tenho os teus traços.
 
Quisera eu saber agora ao terminar, 
Saber que estranha força me move.
Só me resta ficar com a força do amar,
A força da escrita, a que me comove.
 
nito
 

 

                      

 

 

SERMOS

 

Contigo não falo, a ti não te digo
A ti, contigo quero ser mudo!
A ti quero ser eu, mesmo que mendigo,

Quero ser eu, mesmo que imundo!

 

Não me importa ser o que entenderes
A ti não quero ser o que pretendes
Quero ser eu, o que me pensares
Juro, nunca aquilo que tu me vendes!

 

Sou só eu, sem mais, sem flores,
Outro não consigo, não esqueço de mim.
Gostava de ser o que tu queres
Enfim, dizer o quanto de ti estou afim!

 

Que fingimentos, que alheamentos que coisas vãs,
Que tal por uma vez sermos o que dizemos,

Sem escapes, sem fugas e coisas meãs
Sermos o que somos, nunca meios termos.

 

Contigo eu me escondo tu o dizes.
A ti eu não me guardo, me disponho;
Sendo eu de comportamentos infelizes
Só mostra o muito que me exponho!

 

De mim não te escondes, tu o dizes.
Escondes mais a ti, do que me escondes.
Na tentativa de fuga sem directrizes
Daqueles que de si andam tão longes!

 

De amor não sei falar e menos sei cantar,
Flores não sei enviar e cultivar muito menos,
Sei sentir os amores no coração a lavrar,
Sentir a dor na falta dos amores amenos.

 

Se a  falar entrei e calado saio,
Sei falar de tudo com muito empenho.
Não sei dizer o quanto de ti sou  teu aio,
Em percursos tristes me mantenho.

 

Não mais palavras me ouvirás,
Não mais gemeres te mostrarei,
Só aquelas que de forma fugaz
Através do vento, sem querer, enviarei!!

 

nito

 

 

 
 
Vida

Não me perguntem de nada,
Que de nada eu não sei.
Em nada não quero a estada,
Aí, espero, nunca estarei!
 

Não queiram saber quem sou,
Que de mim até me escondo,
Entre o céu e a Terra estou
Em lugar algures deste mundo.
 
Não me perguntem para onde vou
Se o caminho não o conheço,
Vou por entre estradas sem contornos
Na procura dos bosques sonhados
Entremeados em oásis de desejos.
 
Não me questionem o que quero,
Se só o que não quero julgo saber.
Não quero ser desperdiçado,
Não quero morrer sem a vida,
A vida que me é dado viver.
 
Não quero vida com respostas
Que me são dadas ao nascer.
Quero encontrar na vivência as trilhas,
Aquelas que terminado que esteja
Acabe de sorriso nos lábios da vida a bem-dizer.
 
 
nito
 
 

AS PALAVRAS QUE NUNCA TE DIREI

Nunca direi, amo-te.
Nunca direi, preciso de ti.
Nunca direi que tu e eu
Sendo dois, somos um só;
Dois na existência,
Um na essência.
Dois como corpos,
Um no amor que fazemos.
Dois que se juntam,
Um que se funde na junção.

Nunca direi que és linda.
Nunca direi que és bela.
Nunca direi que o teu sorriso
Me faz sorrir porque é teu,
E, egoísta, também o quero para mim,
E assim de novo te fazer sorrir
Com o meu sorriso que é o teu.

Nunca direi como gosto de te amar.
Nunca direi como desejo ter filhos teus.
Nunca direi como me fazes falta.
A falta que ocasiona
O meu sorriso parecer um esgar,
Pela falta do outro lado do sorriso,
E os dias parecerem metades,
Faltando a metade que não vivi.

Nunca direi
Tantas coisas que não direi.
As que não precisam de ser faladas,
As que não faladas são ditas,
Num dizer de entendimento,
Que eu e tu conluiados sabemos.
Uma troca de olhares,
Uma troca de corpos,
Onde tu não sabes se és eu,
Se tu és tu, ou o tu que eu sou!

Nunca direi, NUNCA DIREI!!
Nunca direi, porque tu não existes
Nunca direi, porque tu és SONHO!
Nunca direi, mas não abandonarei.
Nunca direi, mas não perderei.
Nunca direi, mas guardarei num guarda-jóias
As palavras que nunca te direi
Que escondidas as reservo
Para quando te encontrar
As dizer, com aquelas
Que tu me irás ensinar a
TE DIZER

nito

 
 
 
 
 
JUNTOS
 
Caminhemos em alamedas de árvores,
Frondosas, verdes, enxameadas de flores,
Onde homens e mulheres são belos seres,
Onde as crianças são os perfeitos amores.
 
Calcorreemos as ruas da esperança,
Simples, lisas, polvilhadas de cascalho;
O feito dos sorrisos, feito da temperança,
Amortece nossos passos, serve de agasalho.
 
Banhemo-nos em águas de limpidez,
Fazendo transparecer em nossos olhos
Actos reveladores de desejada sensatez,
De braços dados, livrar-nos dos escolhos.
 
Respiremos os ventos amenos da bonança,
Em nosso pulmões ares de primavera,
Em nossas almas querer a pujança,
Sentir a calma do ventre de outrora.
 
Envolvamo-nos nos braços do amor,
Amor que temos e desejemos sem receio,
Num desejar alargado e sem temor, 
Uns e outros, a felicidade de permeio.
 
Andemos de mão dadas, apertadas,
Gentes de credos vários e variadas cores,
Como crianças num jardim, despreocupadas,
No jardim da vida sermos os perfeitos amores.
 
nito
 
 

 

A ESCRITA DE NÓS

 

Tu és tesão, tu és amor!
Tu és tesão no poema!
Tu és poema no tesão!
Tu és o voar
Onde gosto de estar!
Eu sou sofreguidão, sou o acalmar,
Eu sou o escriba no papel,
A colagem do teu pairar,
Como que aberta para mim
A te saborear, em ti a entrar.
Como o cansaço que se atenua
Na satisfação da escrita,
Com o formato dos nossos desejos,
No torneado de nossos corpos!
Assim, segurando nossas cabeças,
Olhos nos olhos a penetrar,
Como ao nos comungarmos
Um no outro nos perdêssemos.
E só queremos o nosso amor,
De nossos íntimos a fusão.
E só queremos nossas bocas,
Da alma o pecado,
O pecado da nossa imaginação,
Que mais nos solta os desígnios,
O interior que escondemos,
Mais avilta o animal que somos,
A carne que nos sentimos.
Dos lençóis do nosso ter
Grita no papel o nosso ser.


nito

 
 
   
 
FALEM-ME DO HOMEM
 
Não me falem de Deus
Se dele ninguém o sabe.
Não o usemos como véus
Do nosso acordar tarde.
 
Não o usem como ele quer,
Não o façam como o desejam,
Não o formem como um ser,
À imagem que não almejam.
 
Deus que criamos à nossa imagem,
À imagem dele nos recriamos,
Por sermos alguém de passagem,
Existindo ele, nos desculpamos.
 
Criamos Deus de mil formas,
Que nós mil formatos somos,
Então porque ser ele as armas
Dos muitos medos que temos?
 
No todo poderoso que o revestimos
Do nosso nada queremos fugir,
Encontramos com isso meios
Para as nossas falhas encobrir.
 
Se pequenos somos e nada sabemos,
Porque houvemos de o inventar
Transformando-o no pai de todos
Na ignorância da origem a nos dar.
 
Somos parte que sempre existiu,
E integrados nela continuaremos,
Somos pequenos, estamos no rio
Do Universo onde nascemos.
 
Num acto de fé feito de querer,
Dessa subtil forma o justificamos.
Porque não aplicar então esse viver
No Homem com que sonhamos.
 

nito

 

 

 
 

 MULHER I

Mulher de onde saímos,
Mulher para onde queremos voltar,
Mulher que seríamos
Sem o teu enorme e complexo amar?

Mulher nua, mulher da rua,
Mulher mãe, esposa também,
Mulher que espera e logo desespera.
Corpo com alma que exala a calma.

Mulher capricho do homem o resquício?
Mulher por si só, quem lhe desata o nó?
Mulher premente, desejo nem sempre presente,
Num corpo que não mente, jamais ausente.

Mulher complexa, por vezes desconexa,
Mulher simples, com os olhos não mentes,
Mulher dependente, que procura a sua mente,
Não sabe, de cansada, a encontrar
Por no homem, enganada, a procurar.

Mulher carente de afagos fremente,
Mulher autónoma, outra anónima,
Mulher premonitória de não reconhecida glória.
Mulher apaziguadora, também lidadora.
Mulher que trabalha e nela se baralha,
Entre quem à luz deu, o parir recebeu
E os novos tempos que o tempo lhe concedeu.

Mulher que o tempo sente, ao vento pertence.
Mulher que vence, mesmo quem não convence.
Mulher de mais um sentido, sentido de sempre.
Mulher esquisita, nela se gasta a escrita.
Mulher que sonhamos, até sê-la desejamos,
Nem tanto para a sermos, mas porque a amamos
E dentro de nós, egoístas, a trancamos. 

Mulher de coragem, também de chantagem.
Mulher de um dia que se presta homenagem,
Por só a vermos como uma miragem
Ao ignorarmos nos dias, a sua aragem.
Mulher que nos completa,
Mulher que completamos,
Então porque nunca sentimos repleta
A união fadada, a que ambos desejamos?

                                         nito                                                   

 

 

 

                                 

                                                                                                                             

     HISTÓRIA DA MENINA DO REINO DO FAZ DE CONTA

    Era uma vez uma menina que vivia num reino, o Reino do Faz de Conta. Essa menina era muito bonita;
tinha uns cabelos lindos, loiros encaracolados, uns olhos gaiatos de meiguice e principalmente
um riso-sorriso que a todos encantava!
     Nesse reino quase que encantado todos faziam de conta, pois se no Reino do Faz de Conta estavam,
de conta teriam que fazer para nele poderem estar e brincar!
     Brincar era o que mais gostavam de fazer, pois eles riam uns dos outros, riam uns com outros,
pregavam partidas entre si, trocavam bilhetes de segredo, segredos que eram só deles e, giro,
também eram de toda a gente! Ahahahahaha!
     Que bom era viver no Reino do Faz de Conta.
     A menina era a que mais de conta fazia, tanto fazia que ela própria já era feita de contas;
contas bonitas, contas coloridas, contas de arco-íris onde só faltava o pote de ouro no fim
das suas contas para mais nos poder contar e encantar!
     A menina ia fazendo de conta e de tanto fazer de conta, ela era já quase o Reino do Faz de Conta.
Ela namoriscava os outros meninos, ela brincava com os outros meninos, ela ria com os outros
meninos e, vejam só, ela por vezes ria de outros meninos que queriam entrar no Reino do faz de conta,
mas não sabiam brincar ao faz de conta por serem de contas que faziam, daquelas contas complicadas,
aquelas contas que os do Reino do Faz de Conta até conheciam, mas que não eram de brincar! Não, as que
não fossem de brincar não! Não eram do faz de conta!
    Assim corria o Reino do Faz de Conta entre as brincadeiras, as algazarras, as tropelias, os amores,
os desamores, os risos, os amuos, os sorrisos que afastavam os amuos e as flores que tornavam os
desamores em lindas amizades. Enfim viviam felizes e entre os mais felizes era a menina dos
caracóis loiros, pois ela era de certo modo o Reino do Faz de Conta!
     Um dia chegou um menino ao Reino do Faz de Conta que também queria fazer de conta.
Não se sabe porque nem porquê, entre o menino novo e a menina dos caracóis loiros gerou-se
uma simpatia mútua. Eles riram, eles brincaram, eles trocaram olhinhos, eles se embeveceram,
mas o menino estranhou! E porque estranhou? Porque não estava habituado a brincar no Reino
do Faz de Conta e porque no Reino do Faz de Conta sempre se faz de conta. E como se faz de conta?
Faz-se de conta que se encontram no faz de conta, mas se não se encontrarem, ahahhaaahh,
não faz mal pois isto é tudo a fazer de conta; faz-se de conta que se gosta, e se não se gosta,
não faz mal, sabem porquê? Claro que sabem, …. Porque isto é tudo a fazer de conta!
      Assim se foi passando até que uma coisa muito gira e castiça aconteceu, a menina dos caracóis
amarelos quis fazer de sério no Reino do Faz de Conta. Coisa estranha, coisa esquisita, dir-se-ia até
nunca vista, o que o menino novo, apesar de novo, de novo estranhou. Fazer de sério no
Reino do Faz de Conta? E falou de sua estranheza à menina dos caracóis loiros, coisa nunca vista,
coisa estranha, dir-se-ia até coisa esquisita!
     Então depois de ouvida a estranheza do menino novo a confusão se instalou, agora na menina
dos caracóis loiros, seria um a sério fazer de conta ou um a fazer de conta a sério? Como seria?
     Assim falados, a menina dos caracóis loiros viu que realmente, fazer de conta, era o que ela
sabia fazer melhor e continuou fazendo de conta no Reino do Faz de Conta, apesar daquele percalço
que a seriedade no faz de conta lhe havia trazido! O menino novo continuou estranhado, mas já não
tanto, pois descobriu que no Reino do Faz de Conta existiam outros meninos para brincarem ao faz
de conta. E desde aí todos brincam ao faz de conta, a menina dos caracóis loiros, o menino novo,
os outros meninos, todos brincam ao faz de conta com contas que eles desejam que sejam só de
somar e nunca as de dividir!
    Mas eles aprenderam uma lição, que de certo modo já sabiam, mais ele por ser um recém-vindo
do reino dos sérios, que levar seriedade ao reino do faz de conta é complicado, quando se anda
de reino em reino e de repente, que acontece, pode-se não saber em que reino se está!
    Fazer de conta no Reino do Faz de Conta e ser sério no Reino dos Sérios!

                       nito                                                  

 

 

MULHER  II

 

Mulher, que me transtornas

Nos juízos que de mim tomas!

Mulher que em tudo reparas

E contigo me comparas.

No gostar? Talvez sim!

Talvez sim, no amar.

Na paixão? Talvez não!

Paixão é tesão!

Paixão é sofreguidão,

Paixão é um nunca ter à mão,

Paixão é um sentir-se em expansão,

Num desejo que vem de onde não sei não.

Só mesmo de uma tensão,

Que nos surge de supetão,

Não tem simples explicação,

É feita em nós, da minha sofreguidão,

Pela minha ansiada atenção,

No querer em ti a minha paixão!

 

Que lamúrias são essas?

De que te queixas?

Com quem me pedes meças?

Porque estás sempre com deixas?

Não saber beijar a mão?

A mão que importante me é!

Não saber falar ao coração?

Aquele que sempre olho com fé!

Não saber a paixão feita de rosas,

De prendas aparentosas,

Feitas de modas,

Feitas do que não gosto em ti,

Feitas das nódoas,

Não do que em ti sempre vi.

 

Não elogiei o teu cabelo,

Não enalteci a nova blusa,

Mas desde já te faço um apelo,

Mesmo que venha uma recusa,

Tenta ver o meu olhar de desvelo,

E nele te verás, a minha musa.

 

Esquece, se do que vestes me esqueci,

Esquece se não te abro por vezes a porta,

Esquece se as palavras lindas omiti!

Lembra, seres desde sempre a minha rota,

Lembra a minha presença, sempre em ti,

Lembra seres em mim o cantar de uma só nota!

 

nito

                                                                                                                    

 

 
 

                      

 

QUE SENTIMENTO É ESTE

Sentimento esquisito, sentimento avassalador,
Sentimento impotente, por mais que tente,
Não mitiga a minha dor!
Sentimento pleno, sentimento de leveza,
Sentimento persistente, ocupa minha mente,
Não ameniza a tristeza!
Sentimento perene, sentimento profundo,
Sentimento alado, coração descompassado,
Não acalma o meu mundo!
Sentimento lindo, sentimento emoção,
Sentimento encontrado, que agora achado
Não atina o coração!
Sentimento doce, sentimento enorme,
Sentimento melado, que entranhado
Não afaga a minha fome!
Que sentimento é este que enleva 
E me entrega a tanta confusão!
Que sentimento é este que inebria
E me entrega a tanta aflição!
Que sentimento é este que consola
E me entrega a tanta sofreguidão!
Que sentimento é este que aplaca
E me entrega a tanta comoção!
Que sentimento é este que confunde
E me entrega a tanta solidão!
QUE SENTIMENTO …….

nito

 

 
 

        

SIMPLICIDADE ONDE ESTÁS ?

Simplicidade, onde estás?
Simplicidade que não te encontro!
Será que te perdi entre contornos?
Será que não te vejo entre destroços?
Simplicidade, onde estás?
Será que sempre estiveste e fiquei cego,
Na procura de ti ,sendo tu simples,
Me esqueci como és?
Simplicidade, onde estás?
Será por tanto te exaltar
E de ti falar, te obscureci
Nas conversas sobre ti?
Simplicidade, onde estás?
Estarás perdida entre os meandros
Dos meus medos, entre defesas,
Ataques dos fantasmas que me avassalam?
Simplicidade, onde estás?
Será que ao pé de mim estiveste,
E eu cego não te reconheci,
Vendo com olhos que não os teus?
Simplicidade, onde estás?
Será que nunca foste, por só,
Nos sonhos dos complicados, seres,
Dilacerando o que és!
Simplicidade, onde estás?
Será no que é, e se mascara
Ou no que não sendo te usa a máscara
Ambos te mascarando?
Simplicidade, onde estás?
Afinal o que és tu, que tão
Somente se perde na complexidade
De dois que não compreendem o um!
Simplicidade que és tu?

nito

 

                FLORBELA                                    

                                            

Não quero ser só de ti,
Não quero ser de alguém,
Quero ser do que não vi,
Quero ser de ninguém.

Quero ser todo de vento,
Quero ser do que me vai,
Quero ser só do tempo,
Da vida que não me trai.

Quero ser como a Florbela,
Quero ser o que me espanta,
Pintar o amor, lindo como ela.

Quero amar a livre Espanca,
Quero encontrar-me perdido nela,
O que a venera, o que que a canta

nito

 

 
 
 
 
March 26

Palavras sem retorno

 

 PALAVRAS SEM RETORNO

 

Palavras ditas, escritas sem retorno,
Palavras sem dono ao abandono,
Palavras lançadas, rejeitadas
Palavras enviadas, sem moradas.

 

Escritos entalados, mas alinhados.
Escritos de alento ao vento sem tempo.
Escritos assim, e de mim arrancados,
Escritos da minha alma, neste momento.

 

Escreverei eu palavras estilhaçadas
Por poucos entendidas, digeridas,
Por todos ignoradas, esquecidas?
Descreverei eu sentimentos amorfos
Não cristalinos, parecendo meros destroços?

 

Para quem escrevo o que descrevo?
Para quem envio o que desfio?
Será para ti, para ele ou para outro,
Será para o incógnito ou para o atónito?
Será então para um silêncio lacónico?

 

Que fantasmas, miasmas expulso?
Que medos, enredos divulgo?
Que ansiedades, infelicidades expurgo?
Será o papel por mim escrito o que me lavará,
O verdadeiro amigo que ouvidos me dará,
O verdadeiro ombro que as feridas sarará?

 

Escreverei até que a felicidade me doa.
Escreverei a cantiga que em mim entoa.
Escreverei sem audiência, com paciência.
Escreverei sem aplausos, sem casos.
Escreverei as minhas causas, sem pausas.
Escreverei porque isso me apraz.
Para ti, para ele, para outro, tanto me faz!

 

nito

 
 
 

António Viana

Occupation
Location
Tudo é interessante é preciso é procurar a ponta por onde se lhe pegar!
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